terça-feira, 1 de setembro de 2015

Um dia na Europa “NA CIDADE, SEM MEU CARRO”




1.   O Automóvel em xeque
Se alguém resolvesse ir a público no Brasil e dissesse que fabricar automóveis e facilitar sua compra não é mais essencial ao desenvolvimento sustentável econômico e social do país teria como resposta do senso comum que ele estaria louco ou contrário aos interesses da nação. Infelizmente esse senso comum está presente no setor de transporte coletivo urbano e comumente vem sempre acompanhada da frase “... não seria melhor defender o transporte público e melhorar o serviço para depois falar do automóvel”. E é isso que o setor tem feito pelo menos nos últimos 25 anos e cujos resultados estão sendo a redução dos investimentos federais e o afastamento do Governo Federal de promover uma política nacional para os transportes urbanos, e ainda os governos estaduais e municipais responsáveis pelo transporte público e pelo trânsito sem ousar medidas de restrição ao uso do automóvel e a priorizar no uso da via para o transporte público.

Os dados demonstram que a geração de emprego não justifica o privilégio público aos automóveis, pois a industria automobilística está em 38o lugar no ranking de 41 dos principais setores de geração de emprego no país, segundo o BNDES (gerando 85 empregos enquanto a industria de vestuário gera 211), e que em 2010 estima-se que enquanto a população cresce 2,5% ao ano a frota de veículos cresce 4% podendo chegar a 47 milhões de veículos contra os 22,3 milhões de hoje.

Enquanto isso no mundo desenvolvido, em particular na Europa, o poder público tem se alinhado as políticas ambientais e de qualidade de vida e começado a reestruturar suas cidades para tratar a mobilidade de forma sustentável onde a prioridade seja o deslocamento de pessoas e não mais os de veículos.. Essa abordagem tem com eixo estruturador a prioridade ao transporte público e ao não motorizado, restringindo a circulação dos automóveis nas áreas centrais e corredores de transporte, bem como tomando partes significativas do sistema viário para a circulação de pedestres e fazendo exigências para que a industria automobilística trabalhe para fabricar carros pequenos e de poluição zero. A França, por exemplo, está com um programa federal onde o Governo Federal dispõe recursos para os municípios que implantarem políticas de restrição ao uso dos automóveis e priorizem os modos coletivos e não motorizados de deslocamento.

O tema desse trabalho é sobre mais uma iniciativa européia de fazer uma operação denominada “na cidade, sem meu carro” onde se envolveram 760 cidades de 26 países sendo 12 fora da Europa. Aqui no Brasil as exigências sociais se somam às do meio ambiente que é o carro chefe das medias de restrição ao uso dos automóveis nesses países e mesmo assim esse é um tema tabu mesmo no seio do setor de transporte e das nas organizações políticas de esquerda. O admitido é defender o transporte coletivo sem contudo questionar os privilégios dos aos automóveis.

É hora de começar a tocar nesse tema no Brasil de forma clara e direta antes que nossas cidades sejam degradadas de forma irreversível. Por isso que podemos começar com esse artigo afirmando que os prefeitos e governadores podem e precisam de poucos recursos para criar faixas e vias exclusivas, utilizando-se das vias existentes, para corredores de ônibus e mesmo para disponibilizarem o sistema viário principal nos horários de pico somente para circulação de ônibus. Da mesma forma a municipalização do trânsito torna fácil a implantação de rodízios, pedágios urbanos, taxação diferenciada para o estacionamento em áreas saturadas e outras formas de desestímulo, visando a redução da circulação automobilística.
O Governo Federal por sua vez pode criar exigências nos financiamentos de obras no sistema viário para que só sejam concedidos aos projetos onde houver prioridade absoluta ao transporte coletivo e ao não motorizado. Deve também se empenhar para que o legislativo federal legisle para que sejam taxados os combustíveis e a venda de qualquer veículo novo ou usado para que esses recursos venham a  constituir um fundo gerido pelos estados e municípios para promover uma revolução na mobilidade urbana investindo em metrôs, ferrovias, vias exclusivas para ônibus ou bonde bem como em calçadas e ciclovias por todo nosso país.

Sim, o país quer cidades onde não haja genocídios anuais no trânsito e onde  o ser humano seja de fato a referência para o trabalho e investimento públicos na mobilidade e não mais a fluidez do tráfego . Para isso precisa que os carros ao circular não poluam, não inviabilizem a circulação de pessoas e mercadorias,  não matem e mutilem seres humanos, e  não degradem a qualidade de vida, e isso é o que esse trabalho visa contribuir.

2.   Europa tem um dia sem carro em 2000
                          
O dia 22 de setembro de 2000 foi um dia diferente em 760 cidades da Europa. Um dia em que qualidade de vida, stress, poluição e ruídos foram objeto de reflexão por parte dos habitantes das cidades que aderiram ao projeto “A cidade, sem meu carro”. Esse projeto é patrocinado politicamente e financeiramente pela União Européia, através da sua Comissionário Geral do Meio Ambiente, como parte do Programa LIFE- Enveronnement  no meio urbano  e também do “Club CAR FREE Cities” (Clube de cidades livres de carros) que reúne 72 cidades européias.

Essa iniciativa da União Européia vem no sentido de aumentar a consciência pública sobre a contaminação e consumo de recursos energéticos causados pelo uso irracional dos automóveis na cidade e reafirmar os pedestres, ciclistas e o transporte público como alternativa possível aos deslocamentos por automóveis nas atuais pautas da mobilidade urbana.

A experiência inicial foi realizada em 1998, com adesão de 35 cidades francesas. Em 1999 a adesão se estendeu para 66 cidades francesas, 92 cidades italianas e toda uma região de Genebra na Suíça. A experiência de 1999 limitou o acesso ao tráfego em determinadas zonas, nas quais só tiveram acesso o transporte público, os veículos ecológicos, as bicicletas e naturalmente os pedestres.
                                 
A aceitação do projeto pela população foi muito boa, com o aumento em média de 10% dos usuários do transporte coletivo e aumento de 900% do número de ciclistas. Para 85% dos entrevistados a operação foi considerada boa e muito boa e deve ser repetida. Dos que aprovaram, 50% desejariam que ela fosse feita uma vez por semana e 96% dos que moram nas áreas onde houve a limitação do tráfego disseram que a operação não os molestou. Os comerciantes disseram que não houve queda nas vendas.

A queda nos ruídos foi de 50% (seis decibéis) e esse foi o resultado mais percebido pela população. A poluição relacionada ao tráfego de automóveis foi de 20% a 50% dependendo da cidade. O interesse da imprensa escrita, falada e televisiva foi impressionante mesmo fora dos países que realizaram a operação.

A organização da operação  “na cidade, sem meu carro” de 2000 foi antecedida de muito trabalho. O primeiro passo foi à formação de parcerias com a população, o poder público e a iniciativa privada. A França, por exemplo, contou mesmo com o apoio direto de montadoras de automóveis como a Toyota; Renaut; Peugeot/Citroen; FORD France; empresas públicas e privadas metro-ferroviária e de transporte por ônibus. Esse fato revela uma visão ampla da importância da qualidade de vida sobre os interesses comerciais dos parceiros, que já refletem sobre a possibilidade de conviverem, no futuro, com outros parâmetros de valores de uma mobilidade não mais centrada nos automóveis ou convivendo nas áreas congestionadas com veículos a gás ou hidrogênio e de tamanhos no mínimo um terço dos atuais.
                                         
Os meios de comunicação dos 760 cidades e os órgãos nacionais de documentação se mobilizaram preparando cartazes, reliases, e orientando os participantes sobre a unificação dos conceitos e objetivos. Para isso constituíram um “site” na internet  www.22september.org que relata como cada país organizou seu dia “a cidade, sem meu carro”, explicita os compromissos, apresenta de seus programas  e  padroniza os meios de aferição dos resultados e a forma de divulgação.

O Programa Europeu foi lançado em fevereiro de 2000 por Margot Wallstrom, Comissionaria européia pelo Meio Ambiente e por mais 6 Ministros. O resultado foi o envolvimento de 14 países da União Européia e 12 de outros países. O Programa teve também o seu mérito de colocar em discussão um tema absolutamente “proibido e tabu” na sociedade globalizada e contaminada pelo “vírus” do automóvel.

As cidades francesas para aderirem a operação precisavam de uma declaração do Prefeito sobre os motivos da adesão, os dispositivos da operação colocados em pratica : área do perímetro reservado, tema principal; principais ações, transportes alternativos, política de estacionamento, material de informação, festas e outras animações, pessoal da municipalidade envolvidos (meios humanos), parceiros da operação, tipos de avaliação e as pesquisas correspondentes, web da operação.

A operação apesar de ter como objetivo principal a luta contra a poluição atmosférica e  sonora geradas pelo crescimento do tráfego motorizado nas cidades, teve também como objetivo a melhoraria da qualidade de vida no meio urbano. Nesse sentido teve três tipos de ações articuladas:
·         Encorajar o uso do transporte coletivo e os deslocamentos alternativos ao do  carro particular;
·         Sensibilizar e informar os cidadãos sobre os modos de transporte ligados a mobilidade sustentável na cidade e sobre os riscos da poluição atmosférica e sonora;
·         Mostrar para cidade como seria um dia com tráfego reduzido no perímetro reservado.

O envolvimento da população chegou a cifra de 7 milhões , sendo que na Espanha representou , com suas 215 cidades 45% da população e na Irlanda com apenas 5 cidades atingiu 40% dos habitantes do país.

A pesquisa realizada durante o dia sem carros em 6 grandes cidades européias ( Barcelona, Copenhague, Helsing, Hamburgo, Lille, Turim) foram unânimes na taxa de satisfação com a operação, que ultrapassou os 80% . A pesquisa apontou que: 86% conheciam a existência da operação (92% em Lille e Turim); 81% acham uma boa idéia a operação (89% em Helsink); 82% acham que deve ser repetida a operação sendo que 42% ao menos uma vez por semana; mais somente 42% acham que tem eficácia no combate aos ruídos ligados ao automóvel.

A operação liberou espaço para os pedestres e mostrou as vantagem para a cidade de uma via melhor dividida pelo modos de deslocamento. Isso foi demonstrado pela pesquisa que mostrou que o nível de satisfação dos moradores da área reservada foi superior a 90%.Uma iniciativa original foi em Dublin onde em toda cidade durante a operação duplicou o tempo para os pedestres nos semáforos.

Além dos estacionamentos oferecidos a preços baixos ou gratuitos no entorno da no perímetro reservado, a operação motivou o lançamento de medidas permanente como novas ruas exclusivas para pedestres, programa para portadores de mobilidade reduzida, corredores exclusivos para ônibus ou veículo leve sobre trilhos, pistas para bicicletas.

O crescimento da oferta e a melhoria na qualidade dos transportes coletivos se revelaram muito popular com um uso muito significativo , promovendo o uso desse sistema de deslocamento.

Um consenso para o sucesso da operação é o envolvimento direto das autoridades nacionais, estaduais e municipais na promoção e participação direta no evento. Isso trás uma maior publicidade para a operação e demonstra para a população uma real vontade política a favor de uma mobilidade sustentável. A Espanha mostrou isso ao se envolverem diretamente dois Ministros e igualmente lideranças municipais e estaduais levaram as 215 cidades a se engajarem na operação “na cidade, sem meu carro”.

Quanto à poluição atmosférica,no perímetro reservado, houve reduções entre 30 a 50% de CO e NO. A poluição sonora reduziu em 50% (menos 5 decibéis) .

Um dia de verdadeira dimensão ´pedagógica da população sobre o meio ambiente e sobre a mobilidade sustentável. Em todas as cidades foram instalados estandes de informação;  foram organizadas em 30 cidades mesas redondas entre as equipes locais e os habitantes para discutir como melhor organizar os deslocamentos; e foram feitas exposições sobre veículos menos poluentes com demonstrações de veículos elétricos e a gás  na Itália, Espanha, Portugal e França.

O sucesso da jornada “na cidade ,sem meu carro”, em todas as cidades participantes, testemunhou a “maturidade dos Europeus em matéria de meio ambiente” e os organizadores esperam que “2001 possa listar um conjunto de ações para tornar a cidade mais fácil de viver de maneira permanente”.

A importância dessa operação fez com que a Associação Nacional de Transportes Público – ANTP e o Instituto de Mobilidade Sustentável - RUAVIVA, duas Organizações não Governamentais comprometidas com o desenvolvimento sustentável no setor da mobilidade urbana, escolhessem a França e a Itália para acompanhar passo a passo essa operação, entrevistando seus organizadores no plano nacional, participando da operação na cidade de Palermo na Sicília e  acompanhando as avaliações dos resultados. A intenção dessas ONGs foi adquirir experiência para apoiar e incentivar os órgãos públicos, entidades privadas e a sociedade civil a promoverem o dia brasileiro “A CIDADE, SEM MEU CARRO”,  e criar o embrião do “Club CAR FREE Cities”  brasileiro.

3.   Vivendo “na Cidade, Sem Meu Carro” em Palermo na Itália (depoimento)
Vivi em Palermo, na Sicília, uma experiência inédita no Brasil: proibir por um dia o acesso dos automóveis e motocicletas a um perímetro da cidade incluindo a área .


Bicicletas e pedestres por todo lado, ônibus a gás ,carros e motocicletas elétricas circulando e expostas para o público, um silêncio gostoso e pouca poluição nesses 380 hectares da capital da Sicília .

Nos jornais locais e de outro da França e Itália  pude ler sobre os questionamentos ao fato da experiência ser de apenas um dia e em área muito restrita. Falaram que Milão não participou e que em Paris e Roma  praticamente não houve a operação, a justificativa era que a organização era feita pelos  partidos de oposição.
                                         
A ampla divulgação pela Televisão e em todos os jornais e a oportunidade criada pela crise do preço do petróleo na Europa, fizeram com que se ampliasse o debate sobre os benefícios e malefícios do automóvel na cidade. E era nítido nas pessoas a boa receptividade da população a operação e conseqüentemente a mobilidade sustentável, como posteriormente as pesquisas demonstraram.

Andei em uma moto elétrica, fui ver os pontos de interdição de acesso fiscalizados por agentes municipais de trânsito e onde  motoristas de moto e carros imploravam para entrar na área proibida ,vi discussão e crítica de

comerciantes que disseram que foi um dia perdido.

Foi bom ver a coragem do Prefeito andando de bicicleta, visitando as exposições , discutindo com  comerciantes e motoristas revoltados que normalmente são intocáveis. Foi  doloroso aceitar a reação da imprensa européia, que mesmo divulgando e abrindo o debate sobre o tema, mostrou-se ainda contaminada pelo senso comum da defesa da cultura automobilística.
                     
            
A Europa toma essa iniciativa mesmo tendo estampado em seus jornais pesquisa realizada em 58 grandes cidades mostrando que o transporte público representa 26% das viagens (eram 34% em 1981) e apenas 20% na periferia,  enquanto no Brasil esse número é em média de 70% e sem recursos econômicos para construir uma infraestrutura que abrigue um aumento de frota semelhante ao patamar europeu.

Após ter vivido essa experiência, enxergo melhor a força da cultura automobilística que cega e entorpece eficazmente as mentes e corações dos brasileiros de poderem ver o genocídio no trânsito que mata em torno de 40 mil pessoas (oficial é 25 mil mortos no local) se considerarmos a morte após um mês do delito; a utilização de apenas 20% do espaço viário pelos ônibus (70% dos usuários da via) que além disso trafegam em vias congestionadas pelos automóveis; a inviabilidade de recursos para construir novas vias para acolher o crescimento da frota de automobilística; e o engodo de dar esperança a cada  brasileiro de que um dia ele possa ter seu carro.

Portanto, optar pelo caminho do desenvolvimento sustentável, como é visto nos documentos oficiais do Governo Federal, de Governos Estaduais e Municipais significa questionar profundamente o paradigma da mobilidade centrado no automóvel e na fluidez desse modo de deslocamento.
Infelizmente esses documentos e discursos não vão a prática devido a eficaz articulação entre parlamentares, governantes, sindicalistas, montadoras, imprensa entre outros, que atuam diuturnamente para manter vivo o vírus da cultura automobilística.

Conheço pouquíssimas organizações que têm a coragem de colocar o dedo nessa chaga de nossa sociedade. Posso citar a Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP, o GREENPEACE, o  Instituto da Mobilidade Sustentável  - RUAVIVA, e umas poucas associações de usuários e prefeituras, que insistem em tocar nesse assunto e tomar iniciativas para alterar esse paradigma.

Essas organizações da sociedade civil tem tido o apoio de algumas empresas jornalísticas e de jornalistas no questionamento às ações nefastas do automóvel no Brasil que tem sorvido muito dinheiro público financiando montadoras estrangeiras com dinheiro do BNDES, incentivando a compra do “automóvel popular” através de facilidades de créditos ao consumidor, e promovendo isenções de impostos federais e estaduais para  atraírem montadoras que geram poucos empregos, mas muito prestígio político.

Deixei Palermo sonhando em ver as cidades brasileiras se juntando às européias no movimento: “Na cidade, sem meu carro”, em 22 de setembro de 2001. Esse sonho mesmo que embrionário começa a ganhar forma quando o Conselho Diretor da Associação Nacional de Transportes Públicos~ANTP na sua reunião de 4 de maio de 2001 aprova o apoio ao lançamento no Brasil da campanha cívica “na cidade, sem meu carro” conscientes de que é possível romper com o tabu de tratar esse tema no Brasil e assim dar passos decisivos na qualidade de vida de nossas cidades.

O sonho ganha mais concretude quando se vê a cidade de Belo Horizonte e Piracicaba com equipe estruturada para organizar a operação, a cidade de Goiânia lançando no dia 9 de junho o Programa “Goiânia Transitando” onde se lançou para o dia 22 de setembro o dia “na cidade, sem meu carro” onde se restringirá o acesso aos automóveis e se fará uma grande caminhada da população pela Paz no Trânsito e quando se vê várias cidades como Guarulhos, Porto Alegre, e mesmo São Paulo enter outras estudando seriamente a possibilidade de se engajar na operação.

Como também é possível realizar o desejo de ver os recursos públicos aplicados unicamente no transporte público e no não motorizado   Mas sonhar e trabalhar para concretizar esse sonho é uma responsabilidade daqueles comprometidos com a democracia, com a ética e com a justiça social e por isso é possível imaginar no futuro leis que obriguem , as propagandas de automóvel a escreverem no seu final :
“Cuidado : o automóvel mata seres humanos, polui e degrada a qualidade de vida”.

Nota: o trabalho utilizou o material de promoção da operação “na cidade, sem meu carro” e por ser material publicitário e para facilitar a leitura o autor não deu os créditos no texto com exceção daquelas passagens onde estava  marcava um posicionamento político dos organizadores , onde foi deixado entre aspas

Urbanista.Nazareno Stanislau Affonso

Presidente do Instituto da Mobilidade Sustentável -RUAVIVA


Coordenador do MDT-Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para Todos


Coordenador do Escritório de Brasilia -Associação Nacional de Transporte Público –ANTP e 


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

‘Nômades digitais’ trocam rotina por vida de viagens e trabalho online


O casal de publicitários Débora Corrano e Felipe Pacheco, ambos com 25 anos, deixou o emprego em uma agência para trabalhar como autônomos e buscar mais qualidade de vida, mas acabaram presos a uma rotina de longas horas no trânsito ao se deslocar entre um cliente e outro. A solução foi trabalhar de casa e realizar reuniões por ferramentas de teleconferência como o Skype. "Tudo começou a ser feito na esfera digital e percebemos que não faria diferença trabalhar da nossa casa em Santana (na zona norte da capital) ou de Berlim”, diz Pacheco, que decidiu levar a ideia ao pé da letra.
Junto com a namorada, Pacheco guardou dinheiro por um ano e no começo de 2014 mudou-se com mala, cuia e dois cachorros para Berlim, aderindo ao movimento conhecido como Nômades Digitais, formado por empreendedores e profissionais autônomos que uniram a vontade de viajar o mundo com um trabalho que pode ser executado remotamente por meio da internet. "É uma questão de liberdade. Você percebe que faz sentido ser nômade no momento em que enxerga que gasta 4 horas do seu dia em deslocamentos para trabalhar em algo que talvez você não goste tanto”, diz Débora, da casa onde atualmente vive com Pacheco e os dois cachorros em Córdoba, na Espanha.
Depois de nove meses em Berlim, o casal passou uma temporada em Madri e migrou para Córdoba antes de seguir até o próximo destino: Lisboa. Os nômades vivem assim: passam uma temporada de algumas semanas ou meses em um país até migrarem para o próximo destino que oferecer uma boa conexão Wi-Fi.
Ainda não há estatísticas sobre o nomadismo digital do mundo. Um dos principais marcos do movimento é o livro Trabalhe 4 horas por semana, de Tim Ferris, publicado em 2007 e que se debruça sobre as técnicas de como trabalhar online e por menos horas.
Há também centenas de ferramentas e blogs que abordam o dia a dia da vida de nômade e dão dicas para quem deseja se unir ao movimento. Débora mantém com Pacheco o blog Pequenos Monstros, que mostra a rotina de quem carrega a vida em uma mala e o emprego no laptop.
O nômade holandês Pieter Levels criou a Nomad List, que indica os melhores lugares para os nômades viverem; o site "Remote | OK”, que lista trabalhos que podem ser realizados à distância; e o canal #nomads, na ferramenta de bate-papo Slack. "A primeira coisa a fazer é descobrir como ganhar dinheiro trabalhando online”, diz Débora, que faz questão de frisar que a vida de um nômade digital não é tão fácil quanto parece. "Existe um movimento hoje que diz: ‘Largue tudo agora e vá viajar’, e nós sempre dizemos: ‘Não, não largue seu emprego agora’, faça um planejamento antes senão você ficará perdido”, diz ela.
É o que defende também a publicitária Fernanda Nêute, de 34 anos, criadora do blog Fêliz com a Vida, que tornou-se nômade digital há 3 anos e meio por influência do namorado, o norte-americano Mark Manson.
"De 40 reuniões que eu fiz quando virei nômade, uma resultou em um cliente. Demorei quatro meses para conseguir um trabalho e ralei muito, mesmo sendo uma profissional com boa reputação e contatos no Brasil”, diz ela, que teve como primeiro destino a Tailândia e hoje está em Nova York.
O principal desafio está em convencer as empresas nacionais de que dá para confiar em alguém que está trabalhando do outro lado do mundo. Ao mesmo tempo, a rotina de nômade exige organização. "As pessoas pensam que eu fico fazendo reunião por Skype da praia. Se você quer ter uma carreira melhor, não tem essa de trabalhar 4 horas por dia e ficar na praia”, diz.
Para os nômades digitais o principal valor não está em ter uma vida fácil ou com menos trabalho, mas um novo estilo de vida. "A tecnologia proporciona às pessoas a possibilidade de serem livres”, diz Fernanda.
Estratégia
Marcus Lucas, de 31 anos, toca cinco negócios no mundo digital em meio a outros projetos individuais. A maioria é baseada na venda de livros e treinamentos sobre empreendedorismo, que garantiram recursos para ele viajar por oito países desde que se tornou nômade, em 2011. "Muitas pessoas simplesmente guardam um montante para a viagem. Sugiro criar múltiplas fontes de renda no Brasil para obter rendimentos mensais consistentes antes de viajar”, diz.
Ele recomenda ter um fundo de emergência de R$ 20 mil e uma renda mensal entre R$ 2 mil a R$ 3 mil para se manter como nômade digital, valor que também faz parte da média recomendada por outros adeptos do estilo de vida. "Em Chiang Mai (Tailândia) pagava R$ 500 de aluguel em um condomínio com piscina”, diz.
O baixo custo de vida e a facilidade de visto são os fatores que tornam a Ásia um dos destinos favoritos dos nômades digitais. "Muitas pessoas acreditam que ser nômade é não parar em nenhum lugar, o que pode ser um tanto quanto equivocado”, diz Lucas. "A grande maioria dos nômades fica no mínimo de um a dois meses em um país para ter maior imersão na cultura e firmar laços de amizade com os locais”, diz ele, que planeja ficar por mais um ano na Tailândia, onde mora atualmente, para aprender o idioma local e muay thai.
Há também quem depois de um tempo planeje estabelecer-se em um local. Fernanda quer voltar ao Brasil. "Toda vez que volto a São Paulo o meu telefone começa a tocar (com propostas de trabalho). A melhor parte de ser nômade é ter flexibilidade para estar onde é importante”, diz. "Pretendo empreender e o lugar onde preciso estar agora é São Paulo.”
Já o casal Débora e Pacheco decidiu manter um apartamento alugado em Berlim para criar uma base na Europa entre uma viagem e outra. Eles apostam que as experiências de vida farão a diferença no currículo se voltarem ao Brasil. "Temos medo de fazer tudo errado, mas quem não tem?”, questiona Pacheco.
Como vivem os nômades digitais?
MORADIA
Os nômades vivem em apartamentos alugados por temporada (como no Airbnb) ou em albergues. Viajam com visto de turismo e a maioria vai para países da Ásia, onde o custo de vida é baixo e o trânsito entre os países é mais fácil – na Europa, por exemplo, a permanência máxima para um turista sem cidadania europeia é de três meses.
DINHEIRO
Como não param em um só país, os nômades costumam manter uma conta no Brasil e pagar as despesas com cartão de crédito internacional. Cartões pré-pagos são a alternativa para saques em dinheiro e muitos recebem pagamentos de clientes via PayPal.
TELEFONE
Skype e WhatsApp são os meios de comunicação favoritos para evitar o alto custo com roaming.
SEGURO-SAÚDE

Existem planos específicos para nômades, como o World Nomads, que oferece cobertura global e seguro específico para quem pratica esportes radicais.

03/08/2015 07:50
O Estado de SP

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

‘Reoneração’ pode aumentar em R$ 300 milhões por ano os custos das empresas de ônibus, diz NTU



A mudança da alíquota de 2% para 3% da receita bruta das empresas de ônibus pode aumentar em R$ 300 milhões por ano os custos dos transportes urbanos e metropolitanos e ser repassada para os valores das tarifas.
O cálculo é da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos que reúne aproximadamente 500 companhias de ônibus em todo o País.
Em entrevista por telefone ao Blog Ponto de Ônibus , na manhã desta quinta-feira, 20 de agosto, o presidente da NTU, Otávio Viera da Cunha Filho (foto), comentou a votação do Senado que, nesta quarta-feira, aprovou projeto que aumenta a tributação previdenciária de 56 setores, entre os quais, o de transportes de passageiros.
A esperança do setor para que não haja aumentos mais pesados nas tarifas de ônibus é que o Governo Federal cumpra a promessa para que a alíquota seja de 1,5%, a mesma que será aplicada para as empresas aéreas.
"Para se ter uma ideia, este aumento para 3% representa, por exemplo, mil ônibus zero quilômetro a menos colocados nas ruas pelas empresas. Há 90 dias para o projeto aprovado pela Câmara e pelo Senado entrar em vigor. Recebemos do governo a promessa de que o transporte coletivo de passageiros será retirado dessa reoneração. Se fala tanto em Justiça Social e o setor que atende a população mais carente terá um tributo maior que a aviação?” – questiona Otávio Cunha.
Mesmo com a aprovação pela Câmara e pelo Senado, o Governo Federal pode alterar a alíquota por meio de medida provisória, por exemplo.
E foram neste sentido as negociações durante esta semana entre o vice-presidente, Michel Temer, e a base aliada do governo.
Se promessa for cumprida, mesmo com o ajuste fiscal, a alíquota sobre os transportes pode ser menor que a atual, que é de 2%.
"Nós [empresas de ônibus] fomos compreensivos com o governo aceitando a aprovação do texto da Câmara. Se houvesse alteração no Senado, tudo teria de voltar para a Câmara, o que atrasaria o ajuste fiscal. Agora queremos que haja o cumprimento do que foi anunciado ao setor” – disse Otávio Cunha.
Segundo ele, se a alíquota baixar dos atuais 2% para 1,5%, haverá impactos positivos para os passageiros. Se as tarifas de ônibus não baixarem, pelo menos podem ter aumentos menores no próximo ano.
"Há uma série de defasagens das tarifas em relação aos custos. O que se pode é compensar estas defasagens, mas haverá sim menor pressão sobre a tarifa com a redução [da alíquota]” – comentou.
De acordo com Otávio Cunha, não é interessante para o empresário de ônibus que tarifa seja alta já que isso pode ampliar a perda de passageiros. Ele explica que quanto maior for a queda no número de usuários, maior também será a tarifa.
"Nos últimos 15 anos, houve uma redução de 30% na demanda por ônibus urbanos no Brasil. Se o setor não perdesse produtividade, hoje poderíamos ter tarifas até 30% mais baixas” – disse o presidente da NTU. "Tarifa baixa é boa para o empresário e a sociedade, desde que cubra os custos dos transportes”. – complementa.
Segundo Otávio Cunha, quando se aumenta o custo das empresas de transportes, isso é repassado para as tarifas o que impacta outros setores que, por exemplo, compram vale-transporte para os funcionários.
As empresas também acompanham os impactos do aumento da alíquota sobre a produção de ônibus de 1% para 1,5% sobre a receita bruta.

"Um aumento para a compra do veículo pode resultar em um impacto de 8% a 10% no custo geral de transportes. No caso dos chassis, os preços seguem a regra do mercado, e hoje as vendas de ônibus estão em queda.” – disse Otávio Cunha que acredita que, pela baixa demanda, as fabricantes podem não aumentar significativamente os preços dos veículos de transportes coletivos.
Otávio Cunha
Blog Ponto de Ônibus
21/08/2015 10:00