quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Transporte público de qualidade, calçadas e ciclovias: pontos inovadores na ‘Declaração de Brasília’ pela Paz no Trânsito, o documento final da 2ª Conferência Global.

PAZ NO TRÂNSITO

Ao encerramento da 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária, houve o anúncio da Declaração de Brasília, documento de oito páginas, negociado previamente, contendo, na primeira parte, um conjunto de 31 pontos que ratificam o desejo de fortalecimento da Década de Ação para a Segurança no Trânsito – 2011/2020, e em seguida, recomenda o desenvolvimento de 30 ações para aumentar a segurança no trânsitoAo final da 2ª Conferência Global, foi referendada e anunciada a Declaração de Brasília, documento de oito páginas, negociado previamente, contendo, na primeira parte, um conjunto de 31 pontos que ratificam o desejo de fortalecimento da Década de Ação para a Segurança no Trânsito – 2011/2020, e em seguida, recomenda o desenvolvimento de 30 ações para aumentar a segurança no trânsito.

Sete grupos de recomendações. As recomendações estão estruturadas em sete grupos, visando, cada m deles, a objetivos específicos: 1) fortalecimento do gerenciamento da segurança no trânsito e aprimoramento da legislação e da fiscalização (dez recomendações); 2) Promoção de vias mais seguras e do uso de modos de transporte sustentáveis (cinco recomendações); 3) Proteção aos usuários vulneráveis das vias (quatro recomendações); 4) Desenvolvimentoe promoção do uso de veículos mais seguros (duas recomendações); 5) Aumento da conscientização e desenvolvimento das capacidades dos usuários das vias (três recomendações); 6) Melhoria da resposta pós-acidente e dos serviços de reabilitação (duas recomendações); 7) Fortalecimento da cooperação e da coordenação para a segurança no trânsito global (quatro recomendações).

Apresentação. O documento foi apresentado pelo ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Castro, e tem como um dos destaques a prioridade concedida à segurança de pedestres, ciclistas e motociclistas – usuários mais vulneráveis do trânsito. Outro aspecto relevante é que, pela primeira vez, um compromisso internacional enfatiza o transporte público como forma de aprimorar a segurança no trânsito. Os países reafirmaram também, no âmbito da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a proposta de reduzir à metade, até 2020, as mortes causadas por acidentes de trânsito.

Alguns destaques. “A promoção de modos de transporte sustentável, em particular transporte público e deslocamentos a pé e de bicicleta seguros, é elemento essencial para a promoção da segurança no trânsito”, afirma um dos trechos da Declaração de Brasília, segundo destaca documento de imprensa do Ministério da Saúde.

Entre as ações recomendadas na Declaração está a adoção, implementação e cumprimento de políticas e medidas voltadas a proteger e promover, de forma ativa, a segurança de pedestres e a mobilidade de ciclistas – como calçadas, ciclovias e/ou ciclofaixas, iluminação adequada, radares com câmeras, sinalização e marcação viária.

“É necessária uma ação efetiva e uma cooperação conjunta para que os resultados apareçam”, disse o ministro Marcelo Castro durante o discurso de encerramento da conferência. “Os países devem assegurar transportes públicos sustentáveis, e adotar ações importantes para fortalecer suas legislações e a fiscalização”, assinalou, destacando também o fortalecimento da cooperação internacional.

Declaração de Brasília trata da questão dos motociclistas, que figuram entre as vítimas mais vulneráveis do trânsito em todo o mundo. O documento recomenda que se desenvolvam e implementem legislação e políticas abrangentes sobre o uso de motocicletas, incluindo educação e formação, licenciamento do condutor, registro do veículo, condições de trabalho, uso de capacetes e de equipamentos de proteção individual. Pedestres, ciclistas e motociclistas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) perfazem atualmente metade das 1,25 milhão de vítimas fatais do trânsito no mundo.

“Mortes e lesões no trânsito são também uma questão de equidade social, já que as pessoas pobres e vulneráveis são, com maior frequência, também usuários vulneráveis das vias (pedestres, ciclistas, motoristas de veículos motorizados de duas e/ou três rodas e passageiros de transporte público inseguro)”, afirma a declaração. “Eles são desproporcionalmente afetados e expostos a riscos e lesões e mortes no trânsito, que podem levar a um ciclo de pobreza exacerbada pela perda de renda”, assinala o documento.

Para proteção desses usuários, um dos compromissos assumidos pelos países na carta é o de estabelecer e implementar limites de velocidade seguros e adequados acompanhados de medidas apropriadas de segurança - como sinalização de vias, radares com câmeras e outros mecanismos de restrição de velocidade, particularmente perto de escolas e de zonas residenciais, de modo a ampliar a segurança de todos os usuários das vias.

Metas reafirmadas. São reafirmadas na Declaração de Brasília as metas de reduzir à metade, até 2020, o número de mortes e lesões causadas pelo trânsito em todo o mundo, e de aumentar de 15% para 50% o percentual de países com legislação abrangente sobre os cinco fatores-chaves de risco – não uso de cinto de segurança, de capacete e de dispositivos de proteção para crianças, mistura álcool/direção e excesso de velocidade.

O acesso das populações a sistemas de transporte seguros, acessíveis e sustentáveis, melhorando a segurança no trânsito notadamente por meio da expansão do transporte público – conforme incluído pela Cúpula da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável 2015 na nova agenda global -, é também uma meta saudada pelo documento.

O reforço dos países a estratégias de policiamento nas vias e medidas de fiscalização com foco na redução de acidentes também está entre as recomendações, assim como incentivar os Estados a introduzirem novas tecnologias de gestão do trânsito e de sistemas de transporte inteligente, para mitigar os riscos de lesões e mortes.

Na área da saúde, o documento aponta a necessidade de fortalecer os cuidados pré-hospitalares, incluindo serviços de saúde de emergência e resposta imediata pós-acidente, diretrizes ambulatoriais e hospitalares para cuidado do trauma, além de serviços de reabilitação.

Declaração de Brasília sobre Segurança no Trânsito reconhece que a maioria expressiva das mortes e lesões no trânsito é previsível e evitável – e, na metade da Década de Ação, há muito a ser feito apesar dos progressos e melhorias em vários países.
MOBILIDADE URBANA INSERIDA NA AGENDA 2030 DA ONU PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Na ocasião em que a Organização das Nações Unidas comemora 70º aniversário, reunidos na sede das Nações Unidas, em Nova York, no período de 25 a 27 de setembro de 2015, chefes de estado de governo e altos representantes dos países membros estabeleceram os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável Globais tendo como horizonte 2030.
São 17 objetivos desdobrados em 169 metas, entre as quais uma sobre mobilidade urbana, inserido no Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis A meta 11.2, sobre mobilidade urbana, assinala: “Até 2030, proporcionar o acesso a sistemas de transporte seguros, acessíveis, sustentáveis e a preço acessível para todos, melhorando a segurança rodoviária por meio da expansão dos transportes públicos, com especial atenção para as necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade, mulheres, crianças, pessoas com deficiência e idosos’. Veja o conjunto dos objetivos e metas acessando link ao final desta notícia.


      Movimentando

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Emoção e novas experiências em relatos da 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária



Um dos momentos mais emocionantes da 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária – Tempo de Resultados, foi o depoimento na neta de Nelson Mandela, Zoleka Mandela, que perdeu a filha de 13 anos em m acidente em 2010 e engajou-se na luta pela segurança viária, tornando-se embaixadora da campanha Makue Roads Safe, instituída pela FIA Foundation, vinculada à Federação Internacional de Automobilismo.

Ela disse: “Estou aqui como mãe e representante daqueles que perderam pessoas queridas para o trânsito. Sonhos e vidas são destruídos e isso não é justo. Pedimos apenas uma coisa: que os governos mundiais e as organizações ajam”. E acrescentou: “Estou aqui pela minha filha, pelos filhos de todos. Para que outras famílias não precisem sofrer o que sofri. Nas últimas 24 horas, pelo menos 500 famílias já sentiram isso. Não é justo”.

Mais adiante, assinalou: “Não há mais desculpas, precisamos diminuir os limites de velocidade e tornar nossas ruas mais seguras. Podemos prevenir milhões de mortes e para fazer isso precisamos de financiamento, de compromisso político, de ação imediata. Vocês sabem exatamente como acabar com essa epidemia. Então, eu peço, em nome das vitimas e como mãe: basta de comprometimentos vazios e amanhãs”, reiterando a célebre frase do avô: “Parece impossível até que seja feito” .

INICIATIVAS DE MUDANÇAS

Em uma das sessões 2ª Conferência Global de Alto Nível , acompanhada pelo coordenador nacional do MDT, Nazareno Affonso, o diretor geral da Agência de Segurança nos Transportes da Finlândia, Marko Sillanpää, informou que no país a velocidade urbana foi reduzida para a faixa entre 40 e 30 km/h; ele assinalou que o transporte público é o modal mais seguro para deslocamentos e se for mais utilizado o número de acidentes se reduzirá.

Em Luxemburgo, o ministro de Desenvolvimento Sustentável e Infraestrutura de Luxemburgo, François Bausch, declarou que vai trabalhar de bicicleta; o pequeno país chegará a 2016 com cerca de 700 km de ciclovias e desenvolve uma política que privilegia pedestres e ciclistas.

Cidade de São Paulo. O secretário paulistano de Transportes, Jilmar Tatto, afirmou que a cidade de São Paulo vem adotando uma política que combina o favorecimento do transporte público com a redução da velocidade máxima do trânsito urbano – de 70 km/h para 50 km/h. Ele sublinhou que foram implantados 500 km de faixas exclusivas para ônibus e 400 km de ciclovias, assinalando que, anteriormente, “os ciclistas eram invisíveis”.Tatto criticou o excesso de espaço para os carros particulares nas vias, assinalando que o automóvel é “maquina mortífera” e que a velocidade não é um direito, sendo, sim um real direito do cidadão, poder locomover-se livremente . Ele também assegurou que a cidade de São Paulo vai cumprir a meta de reduzir em 50% dos mortos até 2020 e voltou a defender a taxação dos automóveis para financiar o transporte público, em especial com a redução do custo da tarifa para o usuário.O secretário disse ainda ser necessário pensar em uma cidade aberta, com parques sem grades, incentivo a artistas de rua, praças com cadeiras de praia e ‘wi-fi’, calçadas qualificadas, e investimento em transporte público e ciclovias, assinalando que tais medidas também ajudam a combater a violência, pois passa a haver mais gente nas ruas. Sobre as críticas que sofre com as ações restritivas, afirmou que o “conflito é essencial para mudar mentalidade e implantar uma cidade para todos” e que a cidade de São Paulo está demonstrando que se pode mudar a cidade com baixos recursos.

Movimentando

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Coordenador do MDT participa da 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária e analisa resultados desse encontro internacional

PAZ NO TRÂNSITO - I

Na condição de conselheiro membro do Conselho Nacional das Cidades, o coordenador nacional do MDT, Nazareno Affonso, participou das atividades oficiais '2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária – Tempo de Resultados', convocada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para avaliar os resultados da primeira metade da 'Década de Ação para a Segurança no Trânsito – 2011/2020', que tem como meta reduzir em 50% o número de mortos no trânsito durante os dez anos. O encontro aconteceu em Brasília/DF, nos dias 18 e 19 de setembro de 2015, e teve a participação de 130 países-membros da ONU, representados por ministros e altos funcionários do setor. Participaram também parlamentares, gestores, especialistas e representantes de segmentos da sociedade. O coordenador do MDT faz uma avaliação do encontro.Nos dias 18 e 19 de setembro de 2015, foi realizada em Brasília/DF a 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária – Tempo de Resultados, convocada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para avaliar os resultados da primeira metade daDécada de Ação para a Segurança no Trânsito – 2011/2020, que tem como meta reduzir em 50% o número de mortos no trânsito durante os dez anos.

O encontro teve a participação de 130 países-membros da ONU, representados por ministros e altos funcionários do setor. Participaram também parlamentares, gestores, especialistas e representantes de segmentos da sociedade.

O coordenador nacional do MDT, Nazareno Affonso, participou das atividades oficiais como conselheiro membro do Conselho Nacional das Cidades. Ele é um dos responsáveis por uma das iniciativas de maior êxito no País em termos de segurança viária: o Programa Paz no Trânsito, de Brasília/DF, que, em três anos, partir de 1996, reduziu em 50% o número de mortos e de pessoas com sequelas em razão de ocorrências de trânsito. Parte destacada do Programa Paz no Trânsito, a campanha de respeito à faixa de travessia de pedestres tornou-se referência para outras cidades do País.

Programa Paz no Trânsito foi coordenado pelo Governo do Distrito Federal articulou seis Secretarias de Estado e teve forte ênfase na fiscalização, e educação, tendo contado com a parceria de parcela da imprensa – qualificada como Mídia Cidadã e no seu primeiro ano conquistou a sociedade, que, ainda hoje, pelo seu engajamento, a cada ano reduz os índices de violência no trânsito na Capital do país, quer se adote como critério o número de mortos por 100 mil habitantes ou por 10 mil veículos. Essa iniciativa da capital federal brasileira foi um doscases apresentados e discutidos no contexto dos eventos correlatos à 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária.

Postura crítica. Como especialista e como coordenador do MDT, Nazareno Affonso sempre manteve postura crítica em relação à falta de iniciativa no campo da segurança viária. Durante a 2ª Conferência Global, o jornal Correio Braziliense publicou um artigo seu, intitulado A inércia do poder público, em que examina rapidamente os pontos principais da questão no País.

Nesse artigo, o coordenador do MDT sublinha que diferentes fatores fizeram com que o Brasil, depois de ter assumido em 2011 o compromisso com Década de Ação Global pela Segurança Viária – 2011/ 2020, mostrasse “resultado sofrível” quanto ao combate à violência no trânsito.

Ele destacou alguns desses fatores, considerados os principais. Um deles foi a fuga de recursos alocados legalmente, como, por exemplo, o desvio de cerca de R$ 60 bilhões entre os anos de 2011 e 2012 em multas e taxas dos órgãos de trânsito e aplicados em outras finalidades. Outro ponto é a complacência do judiciário com os delinquentes do trânsito. Citou também a falta de melhorias nos carros, muitos dos quais não possuem freio ABS, carroceria preparada para ocasionar menor impacto contra pedestres, ou a falta de bloqueadores que impeçam ao motorista exceder os limites da velocidade máxima no país.

Disse ainda que a fiscalização também é falha. São poucos os controles eletrônicos de velocidade frente à quantidade de rodovias e vias de alta velocidade; a utilização de velocidades elevadas no meio urbano, com exceção recente da cidade de São Paulo, e a “péssima formação” de condutores de motos, feita sem o apoio de simuladores.

Nazareno destaca no texto que propostas para enfrentar esses problemas que descreveu estão contidas no Plano Nacional de Redução de Acidentes para a Década 2011/2020, elaborado pelo Comitê Nacional de Mobilização pela Saúde, Segurança e Paz no Trânsito – órgão criado pela presidência da República e conta com a participação de órgãos de governo e representantes da sociedade civil e entregue ao governo federal em 2011.

Esse plano apresenta objetivos e ações com metas organizadas segundo seis pilares estratégicos: gestão, fiscalização, educação, saúde, segurança viária e segurança veicular; e apesar de ter sido gerado por um órgão criado pelo governo, não foi implementado. “Caso o governo brasileiro tivesse assumido esse plano, o quadro de mortos e de indivíduos com sequelas de acidentes de trânsito no Brasil seria outro, favorável à Paz no Transito”, escreveu no artigo o coordenador do MDT.

Pontos. Nas falas finais dos dirigentes internacionais na 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança Viária – Tempo de Resultados pode-se destacar o entendimento de que não há desculpas possíveis para o fato de não se conseguir reduzir pelo menos pela metade o número de mortos e de deficientes permanentes vitimados pelo trânsito. Sabe-se o que deve ser feito. O caminho é forçar o uso do cinto de segurança, das cadeirinhas para transporte de crianças, e de capacetes para quem utiliza motocicletas. É necessário combater a associação do álcool e outras drogas com a direção.É preciso garantir e proteger o uso das faixas de travessia. É preciso identificar e mapear as estradas e vias urbanas de alto risco e atuar com firmeza e rapidez nesses casos. Também é necessário reduzir a velocidade nas vias urbanas, tornando-as mais seguras. Igualmente é necessário ter disponíveis carros mais seguros, dotados das melhores tecnologias de segurança, mas o principal com relação aos carros é buscar fazer com que as pessoas se desloquem cada vez menos com eles, utilizando mais o transporte público.

Os dirigentes assinalaram também que é preciso estabelecer metas factíveis, de modo que todos percebam os avanços quando elas forem alcançadas e se sintam estimuladas a buscar novas metas. Recomendaram o uso de “remédios de curto prazo”, que apresentem para população objetivos visíveis. Também frisaram ser necessário um novo modelo de planejamento urbano, levando o tema da segurança viária para a III Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III), que irá acontecer em Inserir Cidade, em 2016, insistindo que o futuro está em oferecer melhores condições de circulação e de segurança para os pedestres e os ciclistas e ampliar e qualificar cada vez mais as redes de transporte público urbano.

Acidentes são evitáveis. Os dirigentes concluíram, assinalando que na a 2ª Conferência Global, houve a reafirmação um ponto crucial: os acidentes não são fatalidades; são todos previsíveis. Com a redução de violência, pode-se sim, acabar com a fábrica de deficientes físicos. Disseram que caminho existe, é bem conhecido, e não é possível aceitar desculpas de governos e de parlamentos por não reduzirem a violência.

        Boletim Informativo Movimentando

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Especialista da ANTP defende mais atenção ao pedestre no planejamento de corredores de ônibus


Blog Ponto de Ônibus

Estudos do Centro para Cidades Sustentáveis da Embarq, associação internacional que reúne especialistas, e do Banco Mundial mostram que a implantação de BRT pode auxiliar na segurança viária de uma determinada região.
No entanto, ainda são comuns acidentes, principalmente atropelamentos, nos corredores exclusivos de ônibus.
Um dos exemplos foi no Rio de Janeiro. No início da implantação dos corredores diversas pessoas foram atropeladas, inclusive gerando protestos por parte de moradores que chegaram a bloquear via e danificar ônibus. No primeiro ano de operação do Transoeste. No primeiro ano de operação do sistema, dez pessoas morreram atropeladas pelos ônibus.
Mas é uma questão de população acostumar com o BRT, criando uma cultura de respeito aos espaços e sinalizações, ou também os projetos podem ser melhores?
O Blog Ponto de Ônibus conversou por e-mail com a presidente da Comissão Técnica "Mobilidade a Pé e Acessibilidade”, da ANTT – Associação Nacional dos Transportes Públicos, Meli Malatesta.
A comissão ajuda gestores públicos na formulação de políticas para melhorar os deslocamentos não motorizados, por exemplo, como contribui com o Plano de Mobilidade da Capital Paulista.
De acordo com Meli Malatesta,os planejamentos de corredores com soluções simples aumentariam a segurança das pessoas que precisam pegar os ônibus ou de quem simplesmente passa ao entorno.
Ela também defende que os planejamentos de malhas de transportes levem mais em consideração a complementação de viagem a pé com foco na necessidade de pedestres, inclusive, dos que possuem mobilidade reduzida.
"Os corredores e faixas exclusivas de ônibus em si caracterizam uma situação atípica de circulação veicular e esta característica pode acarretar algumas situações de perigo potencial para seus usuários pela produção de falsos cenários de oportunidades de acesso para quem caminha gerando insegurança de tráfego.”
Com apoio de diversos movimentos em prol de circulação mais segura, a comissão técnica auxiliou na formulação do documento PAC Mobilidade Ativa para consolidar políticas de estímulo aos deslocamentos não motorizados nas cidades brasileiras.
Acompanhe entrevista na íntegra abaixo
Dentro do contexto de que os deslocamentos a pé são os mais importantes numa cidade, já que têm relação com outros elementos na mobilidade urbana, como, na prática, os planejamentos e execução dos serviços de transportes coletivos, metroferroviários ou por ônibus, podem melhorar a condição do pedestre?
Certamente.  Muitos planejadores das redes dos sistemas de transporte público coletivo só pensam no seu cliente imediato, o passageiro, como se ele tivesse aflorado diretamente do subsolo nas paradas, estações e terminais. Não imaginam que para acessar estes elementos dos sistemas seus usuários percorrem a pé um trajeto complementar cuja extensão muitas vezes lhes toma mais tempo do que a própria viagem em si.  Da mesma forma estes planejadores devem se deter no conhecimento e entendimento das necessidades das pessoas que caminham, lembrando que o termo pedestre abrange também as pessoas com restrições de mobilidade e em situação de deficiência física uma vez que as redes de transporte coletivo são polos de atração e geração de viagens a pé.
Pela experiência como presidente da Comissão Técnica "Mobilidade a Pé e Acessibilidade” da ANTP, o que a senhora pode falar sobre os modelos de faixas de ônibus, corredores de ônibus simples e BRTs já em operação ou que devem ser entregues à população? Eles contemplam os pedestres ou, em sua maioria, têm se limitado a ser planos de vias para ônibus sem pensar na segurança de quem está ao entorno? Perguntamos isso porque recentemente, por exemplo, os BRTs do Rio de Janeiro se destacaram pelo número de atropelamentos, em especial no início de operação.
Os corredores e faixas exclusivas de ônibus em si caracterizam uma situação atípica de circulação veicular e esta característica pode acarretar algumas situações de perigo potencial para seus usuários pela produção de falsos cenários de oportunidades de acesso para quem caminha gerando insegurança de tráfego.  Uma delas diz respeito, por exemplo  ao acesso de pedestres às paradas de corredores de ônibus com paradas situados nos canteiros centrais.  Muitos destes acessos podem ser feitos somente por faixa de travessia de pedestres semaforizadas situadas no meio da quadra. Usuários que se originam das vias transversais muitas vezes não conseguem visualizar estas travessias e tentam acessar estas paradas atravessando as faixas de pedestres que são normalmente situadas nas esquinas e depois tem que pisotear vegetação existente ou se espremer junto aos gradis que são instalados até o local onde está a parada, ou mesmo invadir a faixa onde circula o ônibus em situação de alto risco. Tudo isso porque quem faz o projeto vê o local de cima, em "planta” e quem o utiliza o vê de frente, na altura do olhar.  Outra situação que também implica em risco é a programação semafórica que ao privilegiar o próprio transporte coletivo sujeita seus usuários que ainda estão a pé a longas esperas e tempos de travessia restritos que impossibilitam completar toda a extensão de via a ser atravessada numa só etapa.  Esta situação de desprivilegio para o passageiro que ainda está a pé induz ao desrespeito fazendo-o preferir se arriscar numa travessia perigosa a perder seu ônibus que se aproxima.  Enfim, ao se planejar estruturas de privilégio ao transporte coletivo não se pode esquecer do seu principal motivo:  o passageiro que ainda é um pedestre.
E a condição dos pontos de ônibus? Constantemente surgem notícias de pessoas que morrem atingidas por carros enquanto estavam aguardando o ônibus. Como melhorar a segurança do pedestre que espera o transporte no ponto?
Os locais escolhidos para acomodarem os pontos de ônibus devem apresentar condições suficientes para acomodar de forma segura  e confortável seus usuários, considerando-se sempre o horário de maior concentração de pessoas.  Além de largura suficiente, boa visibilidade, piso regular sempre em boas condições, revestimento antiderrapante, boas drenagem, cobertura e iluminação, outros cuidados com o trânsito motorizado devem ser tomados como sinalização apropriada e outros elementos para redução da velocidade do tráfego geral.
É possível desenvolver trabalhos para a melhor capacitação de motoristas de ônibus sobre a segurança de pedestres e ciclistas e como fazer isso? Aparentemente, apesar de todas as campanhas, ainda é forte a sensação de que há uma disputa de espaço nas cidades?
Capacitação dos motoristas de ônibus, cobradores, fiscais, enfim de todos os profissionais envolvidos com o planejamento, projeto e operação dos  sistemas de transporte coletivo são sempre necessárias e bem vindas até para abrandar esta situação de disputa pelo espaço público destinado à mobilidade nas cidades brasileiras, sensibilizando-os para os usuários mais vulneráveis da via: ciclistas e sobretudo pedestres.  Tenho informação que muitas cidades, inclusive São Paulo já começaram este trabalho.
Como também tornar os pedestres e ciclistas mais disciplinados e respeitosos? A sensação é que muitos ao saberem que são prioridade pensam que podem tudo no trânsito.
A Educação de Trânsito e Cidadania como matéria obrigatória nas escolas é essencial para preparar as pessoas para compartilhar com segurança e harmonia o espaço  público das cidades destinado à mobilidade.  Infelizmente a  legislação que indica como as pessoas devem compartilhar estes espaços, ou seja o CTB – Código de Trânsito Brasileiro, que institui os direitos e os deveres dos usuários do sistema viário, não é totalmente explorado  nem no único momento em que é ensinado, os usuários da via que têm oportunidade de conhecê-lo, ou seja,  os usuários habilitados, que tiram a CNH.  Os Centros de Formação de Condutores se detém mais em apontar o que os motoristas podem fazer nas vias do que prepará-los para compartilhar estes espaços para os que não necessariamente conhecem essa lei,  que são os usuários mais vulneráveis da via: ciclistas e pedestres.   E estes por sua vez assumem posturas de "quem pensam que podem tudo no trânsito” porque não confiam no respeito pelos motoristas aos seus direitos mais básicos, ao ponto de inventarem um gesto de mão para que os motoristas daqui obedeçam o que já é proposto pela lei: a prioridade do pedestre que atravessa na faixa.
Conte um pouco mais do PAC Mobilidade Ativa e como ele pode melhorar circulação das pessoas, se as propostas foram seguidas. Não existe hoje nenhum financiamento do PAC para os deslocamentos a pé e de bicicleta?
Nosso trabalho como setor da sociedade civil que atua no sentido de proporcionar à Mobilidade a Pé a importância que ela merece na divisão dos espaços e do tempo das áreas públicas das cidades brasileiras destinadas à mobilidade juntamente com outras entidades parceiras que realizam o mesmo trabalho como a Associação Cidadeapé, Corridaamiga, Sampapé, entramos como parceiros das entidades brasileiras de cicloativismo na criação de um documento com a proposta do PAC Mobilidade Ativa como forma de consolidar políticas de estímulo à Mobilidade Ativa nas cidades brasileiras através da obtenção de recursos para a implantação e consolidação destas redes.  A Lei Federal da Mobilidade Urbana (lei federal 12.587/2012) institui a obrigatoriedade de Plano Diretor de Mobilidade aos municípios que busquem recursos do governo federal para serem aplicados em mobilidade urbana, institui a obrigatoriedade da priorização da mobilidade não motorizada, ou mobilidade ativa, nestes planos.
Quais as contribuições da Comissão para o Plano de Mobilidade de São Paulo?
A Comissão Técnica de Mobiliade a Pé e Acessibiliade da ANTP tem atuação nacional e neste ano contribuiu para a consolidação do assunto Mobilidade a Pé no PlanMob de São Paulo através da elaboração de um documento contendo uma análise crítica da proposta preliminar elaborada pela SMT – Secretaria Municipal de Transportes.  As indicações e necessidades apontadas neste documento, posteriormente enviado à SMT,  foram em grande parte aproveitadas na elaboração de sua revisão que atualmente encontra-se em fase final de discussão junto às entidades representativas anteriormente mencionadas além da ANTP.
Saiba mais sobre o assunto no site da ANTP
Recentemente, você se machucou andando em São Paulo. Como e onde foi isso? E, num olhar de técnica e cidadã, faça uma avaliação de como é caminhas na cidade?
Fraturei o tornozelo esquerdo torcendo-o violentamente ao pisar numa irregularidade de uma calçada situada num bairro paulistano central e de alto poder aquisitivo.  Estava calçando tênis, então o tipo de calçado não colaborou para a ocorrência do acidente, o problema foi a má condição da calçada mesmo.  Este acidente me obrigou a uma imobilização total de 2 meses e atualmente estou em imobilização parcial com fisioterapia.  Além das consequências indesejáveis do acidente em si, tive grande prejuízo material ao ter que abrir mão de muitas atividades profissionais. Assim como eu várias pessoas passam pela mesma situação nas cidades brasileiras acarretando um enorme prejuízo ao SUS e suas vidas pessoais em decorrência de um problema muito sério, mas de solução simples e barata.  Este tipo de acidente, que não entra nas estatísticas de trânsito brasileiras e supostamente em nenhum país do mundo, gera mais atendimento em prontos socorros em todo o país do que os outros tipos de acidentes de trânsito.  A "deseconomia” gerada atinge valores monetários altíssimos e poderia ser evitada com medidas muito simples e de baixo custo. A legislação adotada para a construção e manutenção de calçadas em São Paulo e na maioria das cidades brasileiras que institui ao poder privado a construção e manutenção das calçadas e ao poder público sua fiscalização já se mostrou ineficaz e injusta para com a Mobilidade a Pé uma vez que a pista por onde circulam os veículos e de inteira responsabilidade do poder público.  Esta diferença de tratamento dos espaços públicos destinados à mobilidade urbana e a indiferença do poder público e da sociedade civil para este problema aponta a pouca valorização que é atribuída à caminhada , desestimula sua prática e induz a uma cidade desigual, não democrática e perigosa. 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Mulher e Moto: a invasão do sexo feminino num universo que era só dos homens


10/12/2015
por Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior*

A mulher sempre foi tímida, temerosa, caseira, ligada ao trabalho doméstico e, num piscar de olhos, a partir da década de sessenta passa a invadir espaços nunca dantes navegados. Lança-se no mercado multidisciplinar, avança em todas as direções, passando a concorrer sistematicamente com o homem. De pouco tempo para cá invade o espaço das motocicletas, até então domínio absoluto do sexo masculino. Começa como carona e logo assume o guidom.
Discretas, sem exibicionismo, cautelosas, preocupadas com a segurança, conquistam o mercado de motocicletas. Hoje, estima-se que 25% da frota brasileira de motos sejam de domínio das mulheres.
E porque será que esse mercado cresce tanto? Vários são os fatores: prazer de pilotar; baixo custo; baixo consumo; manutenção de baixo custo; fácil estacionamento; proporciona lazer e trabalho; fácil mobilidade.
Mas a mulher não ficou só na utilização convencional da moto. Partiu para motoboy, mototaxi, moto velocidade, MotoCross, rali, moto aventura, invadindo áreas que jamais entrou.
Curiosamente temos observado que os acidentes envolvendo o sexo feminino têm sido baixo e quase sempre sem muita gravidade. A gravidade torna-se predominante quando a mulher é passageira, sempre conduzida por homem, principalmente jovem. Daí surgiu também novo mercado de moda. Roupas, capacetes, luvas, macacões, botas e todo um aparato sofisticado e específico para atender uma nova vaidade feminina. A demanda cresce, o mercado se agiganta. Tudo é usado de conformidade com a legislação.  Cuidados na utilização dos equipamentos de segurança, na manutenção dos mesmos e do veículo.
Fatalidades são raras quando pilotando e se justifica tendo em vista comportamento totalmente diferenciado em relação ao homem.

Principais diferenças na utilização da moto
Entre outros múltiplos fatores diferenciais estão presentes:

Homem                                                      Mulher
Status, poder, conquista                      Necessidade
Exibicionista                                     Humilde
Negligente, imprudente                      Prudente, segura
Sem medo                                      Medo
Não cauteloso                                   Cautelosa
Esquece a segurança                          Segura
Acidentes médios e graves                   Acidentes leves
Compulsão para velocidade                  Sem compulsão
Impaciente                                       Paciente
Chega ao estresse rápido                     Estresse em longo prazo
Agride                                             Não agride
Intolerante                                       Tolerante
Não usa a direção defensiva                 Usa direção defensiva
Veloz                                              Sem velocidade
Usa direção ofensiva                           Não usa direção ofensiva
Faz uso de álcool e drogas                   Raramente usa

Como explicar tudo isso?
O homem difere em muito da mulher desde o metabolismo, as alterações hormonais, agilidade, agitação, desequilíbrio comportamental, atos impensados, compulsividade, pressa, melhor orientação espacial, necessidade constante de impor condições e de se julgar o dono do mundo.
As diferenças estudadas por pesquisadores americanos foram justificadas por condições genéticas e a ação de estrogênios na mulher.
No sexo feminino há uma integração dos hemisférios cerebrais fazendo com que o hemisfério emotivo se conecte com o hemisfério analítico levando a atitudes mais elaboradas, mais seguras, conscientes e bem conduzidas, diferentemente do homem que tem como característica rapidez no raciocínio matemático e espacial.
As mulheres são melhores nas condutas, nas palavras, nas relações humanas, mais tranqüilas e analíticas.
Estou convicto que por todos os motivos e justificativas apresentadas, entendo que sobre duas rodas, seja no lazer ou no trabalho, a mulher é mais consciente, segura, cônsul dos riscos, responsável e tem melhor desempenho.

*Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior
 Diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da ABRAMET
www.abramet.com.br
dirceurodrigues@abramet.com.br

Perkons


domingo, 13 de dezembro de 2015

Estacionamentos vilões

Planeta Sustentável
Os urbanistas são unânimes em dizer que quanto mais espaços se criam para os carros, mais carros aparecem para ocupá-los. Essa constatação é facilmente percebida em cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, onde as taxas de motorização são altas e o tempo médio gasto para ir da casa ao trabalho é 31% maior que em Xangai, Nova York Tóquio e Paris, segundo dados levantados pelo Ipea. E os estacionamentos, em particular, ocupam espaços valiosos das cidades e suas vias, afetando de forma negativa o planejamento urbano.
Em São Paulo, onde já se discute o uso de vagas inteligentes de Zona Azul em um novo modelo, regulações antiquadas como a dos Polos Geradores de Tráfego (Lei nº 15.150) - que obriga todos os novos empreendimentos imobiliários a criarem um número de mínimo de vagas com base no seu tamanho - passaram a ser alvo de críticas de órgãos públicos, empresas e ativistas. Um dos agravantes é que a capacidade de criar vagas não aumenta no mesmo ritmo que novos carros chegam às ruas de São Paulo.
Uma pesquisa da EY Consultoria, realizada para quantificar as vagas em 15 distritos do centro expandido da capital paulista, mostra que existe lugar para apenas 384 mil carros dos 509 mil que vão para a região diariamente. Ou seja, 125 mil motoristas não conseguem vagas, passando mais tempo no trânsito procurando por elas. Os estacionamentos deixaram de ser cômodos para se tornar mais um catalisador dos problemas da mobilidade urbana em um cenário que se repete na maioria das capitais brasileiras: excesso de veículos nas ruas, congestionamentos, índices perigosos de poluição do ar e horas perdidas no trânsito atrás de uma vaga.
"Quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro particular nas grandes cidades, que já possuem grande parte de suas áreas projetadas para seu uso e ainda assim sofrem com congestionamentos. Os estacionamentos condicionam comportamentos e escolhas nas cidades, uma vez que todos que dirigem escolhem o carro como meio de transporte pensando em estacionar", explica o urbanista americano Michael Kodransky, especialista no tema e gerente global de pesquisa do Institute for Transportation and Development Policy (ITDP), organização sem fins lucrativos com sede em Nova York que promove projetos e ideias sustentáveis de mobilidade urbana em diversos países, incluindo o Brasil. Entre os conselheiros do ITDP estão planejadores e urbanistas visionários como Enrique Peñalosa, que conseguiu reinventar a antes caótica cidade colombiana do ponto de vista da mobilidade ao priorizar ciclovias e o investimento no transporte público de massa, como o Bus Rapid Transit (BRT).
No Rio de Janeiro, onde o ITDP mantém escritório, Kodransky está coordenando pesquisa inédita junto à prefeitura carioca sobre o uso de vagas no centro da cidade. Os dados colhidos serão importantes para um projeto de estacionamentos, inspirado nos bem sucedidos Ecoparq da Cidade do México e no SF Park de São Francisco, EUA, que utilizam parquímetros inteligentes para fazer cobrança variável das vagas com base na demanda de certas regiões nos horários de pico.
Na capital mexicana, os resultados positivos do Ecoparq são indiscutíveis, a cidade conseguiu acabar com a ação dos "flanelinhas" e aumentar a rotatividade das vagas, tornando mais eficaz a necessidade de estacionamento no bairro central de Polanco. O tempo gasto (homens-hora) na busca por estacionamento na região caiu de 8,2 milhões de horas por ano para 1,9 milhão, enquanto o gasto de gasolina durante a procura caiu de 9,9 milhões de litros para 2,2 milhões de litros. Por consequência, a cidade conseguiu reduzir em 18 mil toneladas a quantidade de CO2 gerado pelos carros.
Michael Kodransky fala sobre os danos causados pelos estacionamentos e o sucesso de iniciativas como o Ecoparq. Em  entrevista para o Planeta Sustentável explica o impacto dos estacionamentos como paradigma não apenas na mobilidade e na densidade urbanas, mas no planejamento e na qualidade de vida das cidades.
Quando os estacionamentos para carros se tornaram um problema para a mobilidade urbana?
Os primeiros estacionamentos surgiram nas décadas de 1920 e 1930, quando o número de motoristas começava a aumentar em escala global e os carros passaram a ocupar um tamanho precioso do espaço público - o espaço entre as casas e prédios, assim como espaço por onde as pessoas antes caminhavam e passavam o tempo livre. Essa imposição do carro no domínio público atrapalhava a segurança e a vitalidade das cidades. Por isso, criaram-se estacionamentos para todo tipo de empreendimento imobiliário e destino que se possa imaginar. Desde então, cada viagem começa e termina em algum estacionamento, seja no trabalho, na escola, no hospital ou no shopping center. O problema é que, em geral, todos que dirigem, planejam suas viagens pensando na sua necessidade de estacionar, de preferência próximos ao seu destino, intensificando o tráfego local na busca por uma vaga. Com o tempo, quando as cidades atingiram seus picos de motorização, as pessoas passaram, e ainda passam, a gastar grande parte de seu tempo e dinheiro atrás de vagas, aumentando os efeitos negativos do excesso de carros nas ruas, como congestionamentos e a poluição do ar. Os estacionamentos deixaram ser uma boa ideia para se tornarem mais um desafio para amobilidade urbana sustentável.
Qual é o impacto dos espaços reservados para estacionamento nas grandes cidades?
Os estacionamentos podem ser projetados para que não sejam vistos, embora os problemas que causam persistam nas ruas. Os estacionamentos se originam nos espaços privados, mas impactam o domínio público no final da linha, enquanto todos tentam se espremer atrás de vagas nas vias, que tem uma capacidade limitada. Nas megacidades globais, o impacto é ainda maior, pois se passa muito mais tempo procurando onde estacionar. E você pode não ver os carros nos estacionamentos, mas eles continuam ocupando espaços cada vez maiores e moldando a cidade de maneira pouco democrática. Quando você junta uma ao lado da outra todas as vagas para estacionar que existem, percebe claramente que isso culmina em muito espaço apenas para os carros, erradicando a possibilidade de uma cidade mais densa, com os lugares mais próximos uns dos outros, onde se pode caminhar ou andar de bicicleta até os destinos. E o uso dessa grande área para os carros não é ativo, pois um carro passa a maior parte do tempo parado no estacionamento. Essas vagas não formam um espaço para comércios, escritórios, residências, ou seja, lugares que no final das contas poderiam movimentar a economia da cidade ou gerar impostos não apenas para um indivíduo, mas para todo o bairro ou comunidade.
Em cidades como São Paulo, existem leis que exigem a construção mínima de vagas para novos empreendimentos imobiliários comerciais e residenciais. Isso piora o cenário?
Há décadas não tiram o pó das regulações para a geração de estacionamentos como a que São Paulo tem. Esses códigos foram criados quando o número de motoristas aumentou e os congestionamentos atingiram seu pico. De fato, um dos agravantes é que as cidades passaram a incluir os estacionamentos nos planejamentos urbanos, códigos de zoneamento e regulações para as construções de novos prédios e espaços públicos. Dessa forma, urbanistas e arquitetos foram obrigados a fazer seus projetos levando isso em conta. Muitos deles se baseiam em um livro nada amigável para a mobilidade urbana do Institute of Transportation Engineers, publicado nos EUA na década de 1950, que promove a ideia de estacionamentos diferentes para diferentes estabelecimentos. Por exemplo, se você tem uma padaria, lá se encontra um esquema para construir um estacionamento para uma padaria, ou um salão de beleza, uma fábrica, uma estação de trem, etc. Isso define para cada uso específico do espaço da cidade um tipo de estacionamento e, por consequência, o que vemos é um monte de estacionamentos tomando espaço e aproveitando um valioso metro quadrado sem gerar qualidade de vida ou dinheiro. Por outro lado, se é necessário ter um estacionamento, prédios com uso misto - por exemplo, um que tenha comércio nos primeiros andares e residências nos últimos - podem tê-lo de maneira mais inteligente, pois os horários de uso se intercalam para os diferentes tipos de ocupação daquele espaço.
Como o planejamento urbano pode mudar o uso desses espaços destinados ao estacionamento para algo mais eficiente?
Em geral, as pessoas dizem "nós não temos sistemas de transporte público eficientes, então precisamos de estacionamentos", mas é aí que o planejamento entra de maneira decisiva. Não se pode mais planejar apenas com uma perspectiva em mente, no caso, a do uso do carro. O planejamento urbano deve ser feito com um pacote de ferramentas e estratégias dentro de uma visão mais abrangente, que inclua os pedestres, os ciclistas e a integração com os diferentes modos de transporte, de modo que o espaço da cidade seja mais bem aproveitado. Mais importante é que se planeje pensando no uso misto e na densidade da cidade, sem separar os diferentes usos do espaço, como acontece em Brasília, onde cada área é dividida com uma finalidade, seja de viver, comprar, estudar ou trabalhar. Dessa maneira, você impõe o uso do carro para diferentes finalidades. E muitos dos estacionamentos são planejados com base em ideias ultrapassadas como essa.
Na impossibilidade de eliminar grande parte dos estacionamentos hoje, como o uso das vagas de estacionamento pode ser mais sustentável?
Há duas distinções no uso de estacionamento, uma durante o seu pico e outra fora dele. Tem um período durante o dia em que o uso das vagas no centro da cidade e nos principais bairros comerciais atinge o máximo, ou seja, não há vagas suficientes para atender a demanda de estacionamento das pessoas que vão até esses locais de carro. Em São Francisco, nos EUA, entenderam isso e decidiram colocar em prática um projeto piloto, o SF Park, para aumentar a tarifação dos parquímetros com base na procura. Se mais pessoas querem estacionar, maior o preço. Estudo após estudo, descobrimos que o comportamento dos motoristas não é intrínseco aos seus desejos, mas baseado em suas conveniências de estacionamento e escolhas particulares de transporte no uso do carro. Então, as pessoas podem escolher diferente se o preço certo for ajustado.
A questão do pedágio urbano, por exemplo, é bastante polêmica em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Há uma enorme rejeição por parte da população. Como convencê-las de que restringir ou regular o estacionamento nas ruas pode ser uma boa prática?
Ajuda nisso o fato de que a maioria das viagens realizadas dentro das cidades é de menos de cinco quilômetros, algo que pode ser facilmente percorrido de bicicleta, de ônibus ou a pé. Em algum momento, as pessoas se dão conta e pensam "minha viagem é curta, talvez eu não precise do carro" ou "o carro vai atrapalhar meus outros compromissos, além de me custar um bom dinheiro". Esse tipo de pensamento deve ser priorizado se você não quer uma cidade como Detroit, que resolveu seu problema de trânsito se livrando de seus espaços públicos e pessoas para criar um ambiente que tem centenas, ou milhares, de estacionamentos. Aliás, há mais estacionamentos por lá do que espaços para usos ativos. O exemplo que vemos em diversas cidades americanas em fotografias aéreas é de enormes áreas de estacionamento, verdadeiros oceanos de vagas, circundando pequenas ilhas de espaço para o uso ativo. Aumentar os custos de estacionar pode ser algo muito eficiente na tentativa de mudar os comportamentos nas cidades. É preciso fazer as pessoas entenderem que na origem dos danos dos estacionamentos para a mobilidade urbana há também um custo social que as pessoas em São Paulo sentem todos os dias enquanto estão presas no trânsito. Esse custo é pago por todos, não apenas pelo motorista.
Isso se aplica às grandes cidades brasileiras, dadas as suas particularidades culturais e de planejamento?
Sem dúvida há trabalho para ser feito e se deve investir fortemente em transporte público de massa, mas também há várias áreas e bairros que possuem vantagens em suas estruturas para planejar espaços mais sustentáveis. Em bairros com ruas pequenas, calçadões e muitas esquinas, as pessoas já se sentem mais confortáveis para andar, ao contrário do que acontece em lugares com grandes avenidas e ruas que alongam as viagens. Devemos priorizar esse tipo de bairro que apresenta boas condições para o adensamento da cidade, permitindo que as pessoas andem mais ou usem a bicicleta para trabalhar ou estudar. No Brasil, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, um dos problemas são as entradas dos prédios, comerciais ou residenciais, que se tornam cada vez mais afastadas das calçadas e ruas. Essas entradas, assim como os estacionamentos, também não possuem usos ativos e prejudicam a atração e o desejo de caminhar. Se você tem uma maior transparência entre os espaços privados e públicos, permitindo essa comunicação entre a rua e os prédios, se cria um desejo maior de andar. Em bairros como o Leblon, no Rio, e Vila Madalena, em São Paulo, vemos que isso já acontece assim. Não é à toa, portanto, que possuam os metros quadrados mais caros, quando comparados com outros bairros como Barra da Tijuca, ao norte do Rio de Janeiro. É simples: as pessoas gostam de andar por lá e passam mais tempo na rua. O exemplo da Times Square, em Nova York, é claro nesse sentido. Quando limitaram o acesso dos veículos e investiram em espaços paras as pessoas sentarem e conversarem, o consumo e a qualidade de vida aumentaram, revitalizando uma região da cidade que estava quase condenada pelo abandono dos negócios e das pessoas anos antes.
Quais as vantagens do Ecoparq, projeto desenvolvido na Cidade do México, sendo copiado agora no Rio de Janeiro?
Para começar, a cidade do México também sofria com o problema dos "flanelinhas", chamados por lá de "franeleros", que traziam outros problemas sociais à mobilidade por conta da informalidade e o elemento infeliz de extorsão que está inserido na sua prática. O Ecoparq formalizou o sistema de estacionamento e introduziu um esquema de gerenciamento dos parquímetros que aceitam diversos meios de pagamento, além de funcionarem com energia solar. Isso trouxe flexibilidade para os motoristas de carros e economia para a cidade, estimulando o uso de outros modais por quem vai para certas regiões apenas para trabalhar e uma maior rotatividade das vagas para quem está de passagem por conta do limite de tempo para estacionar, que é de no máximo três horas. Outro ponto importante do projeto é que o dinheiro gasto para estacionar é investido de volta na cidade em políticas públicas de mobilidade urbana e planejamento. O custo de estacionar vira um ganho para a cidade também. É importante mudar a mentalidade das pessoas de que estacionar não tem um custo para a cidade e de que aquilo é direito seu e deve ser gratuito.
Alguns especialistas acreditam que a construção de estacionamentos verticais pode ser uma solução viável para o caos do trânsito paulistano. O que você acha disso?
Não importa se você constrói horizontal ou verticalmente, já existe uma maximização da poluição e dos congestionamentos. Se você continua a construir estacionamentos, você está estimulando o uso do carro particular. Construir um estacionamento vertical facilita o acesso ao carro, mas não a mobilidade que ele terá na rua. Os problemas continuam. Eu sou um defensor da ideia de que se os estacionamentos não podem acabar, devem pelo menos ser consolidados em um único lugar, de forma que as pessoas possam se locomover de outro modo para os seus diferentes destinos. Da maneira como é - cada região tendo seu próprio estacionamento -, só atrapalha ainda mais a locomoção de quem está a pé. Normalmente, as saídas desses estacionamentos passam pelas calçadas e isso gera desconforto para quem está nelas caminhando. O pedestre além de tudo perde o seu espaço, pois a calçada deixa de ser um lugar seguro para andar.
Afinal, a solução para a mobilidade urbana é política ou de infraestrutura?
Se você olhar para São Paulo, vai ver que o trânsito já está saturado e os estacionamentos cada vez mais caros. Exatamente como aconteceu em Nova York na década de 1970, quando tratados governamentais para reduzir as quantidades de material particulado no ar foram aprovados. Naquela época, cidades como Nova York e Boston perceberam então que grande parte da qualidade local do ar estava ligada aos automóveis. Toda cidade pode decidir que tipo de cidade quer ser para oferecer qualidade de vida aos seus habitantes, porque agora as pessoas moram nas cidades não apenas por necessidade, mas por vontade própria. Elas se deram conta de que as cidades podem ser mais do que espaços apenas para trabalhar ou morar, mas também para aproveitar e ter experiências. E, pelo que pude constatar viajando pelo mundo, os espaços destinados para estacionamentos distorcem e impactam essas experiências sem que as pessoas se deem conta.
No Brasil, o que você pode ver nas suas pesquisas como bons projetos para mobilidade urbana?

No Rio de Janeiro, há muitos bons projetos. Um deles foi a implementação do Bus Rapid Transit e a possibilidade que ele oferece de integração com outros modais, como metrô, e as ciclovias. Integração é algo importante porque permite à pessoa escolher a opção que mais lhe interessa, seja a mais rápida, a mais barata ou a mais confortável. Também pude acompanhar discussões sobre a necessidade de moradias mais acessíveis e próximas dos centros das cidades, pois as pessoas mais pobres continuam longe deles e, consequentemente, dos seus trabalhos. Os mais pobres arcam quase que exclusivamente com o ônus do caos na mobilidade urbana ao levar de 3 a 4 horas para voltar pra casa. Esses debates que incluem a questão da moradia e seus efeitos no trânsito são de extrema relevância no que tange pensar a densidade de uma cidade. Nesse sentido, o Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, pode ser um alicerce também para solucionar parte dos congestionamentos. Mas é importante que transporte público de massa seja oferecido na cidade, pois sem isso não há densidade. E critérios para um bom design urbano, bonito e atraente, devem ser estabelecidos para que as pessoas saiam mais de casa e andem com conforto pelas ruas.